Canal de denúncias: plataforma não é solução

Muitas empresas contratam um canal de denúncias acreditando que o problema está resolvido. O verdadeiro teste, porém, acontece quando a primeira denúncia chega. A história a seguir é ilustrativa e mostra a diferença entre comprar uma ferramenta e contratar uma solução.

A história de uma empresa que “comprou” um canal

Uma empresa decidiu investir em integridade. Depois de eventos, palestras e várias abordagens comerciais, a diretoria concluiu que precisava de um canal de denúncias. O fornecedor apresentou uma plataforma moderna, com telas bonitas, relatórios coloridos e acesso por celular, com a promessa de atender às exigências legais e às boas práticas de governança. O contrato foi assinado.

Na implantação, surgiu uma pergunta simples: “E quando chegar uma denúncia, quem fará a gestão?” A resposta: “Nós somos a plataforma. A gestão é feita por uma empresa parceira.” A diretoria estranhou, mas aceitou.

Meses depois, na primeira segunda-feira com uma denúncia, havia relatos de possível assédio e conflitos internos, com potencial de consequências trabalhistas e reputacionais. A empresa ligou para o fornecedor da plataforma: “Nós apenas disponibilizamos a tecnologia.” Ligou para o gestor do fluxo: “Nossa função é controlar prazos e registrar etapas.”

E quem entrevista as pessoas? Quem analisa os documentos? Quem produz o relatório? Quem define as evidências? Ninguém. Nada disso estava no contrato.

O que a empresa descobriu

A denúncia continuava ali. Alguém precisava:

  • analisar os fatos;
  • entrevistar testemunhas;
  • avaliar documentos;
  • verificar a consistência das informações;
  • elaborar conclusões tecnicamente fundamentadas;
  • orientar a empresa sobre os próximos passos.

Esse “alguém” não existia no contrato. Um canal de denúncias não é só um formulário na internet, nem só uma plataforma, nem só um fluxo de tarefas.

Perguntas para fazer antes de contratar um canal de denúncias

  • Quem faz a triagem das denúncias, e com qual qualificação?
  • Quem conduz a apuração, entrevista testemunhas e analisa as evidências?
  • Quem elabora o relatório conclusivo e as recomendações?
  • Existe apoio jurídico para a apuração?
  • Como é garantido o sigilo, inclusive o anonimato do denunciante?
  • Quais indicadores a diretoria receberá?
  • O que acontece se a denúncia envolver a própria diretoria?

Como a Ouvidoria Ética trabalha

Na Ouvidoria Ética, o canal de denúncias inclui triagem independente e apoio jurídico para a apuração, e, quando é preciso ir a campo, as investigações e sindicâncias internas completam o fluxo. Para entender o que a lei exige, leia Canal de denúncias e a Lei 14.457/2022.